quinta-feira, 31 de março de 2011
Ambas as nossas opiniões são excessivamente coerentes. Ainda que demasiado dramáticas e drásticas, são reflexivas. As nossas falhas estão disfarçadas, com camadas de pó de celeiro, a preencher os poros. Imperfeições encobertas. Como dizes, tão diferentes. São as nossas distintas marcas que nos completam.
sexta-feira, 25 de março de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
PEIXOTO, José Luís da
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
PEIXOTO, José Luís da
terça-feira, 1 de março de 2011
As madrugadas têm um semblante especial. As madrugadas na cidade, têm uma espécie de aroma e cor diferentes. Os prédios, tal como camisas já desbotadas, afiguram-se cada vez menos coloridos, com uma estranha textura e rabiscados, desprovidos de significado lógico. As estradas assemelham-se a um coração destroçado: têm tantos buracos e estão tão desfeitos, feitos de materiais tão instáveis. Nos estendais, as toalhas gastas esvoaçam com o vento, que está, particularmente, arisco, esta manhã. Vidros lacrimejados pelas lágrimas da chuva, secos pela calmaria das marés. Tal como nós.
Lá fora as cerejeiras bravas florescem. E os tentilhões povoam os pedacinhos de terra da cidade, em busca de alguma migalha que, eventualmente, alguma menina tenha deixado cair. A Primavera chegou amor, como sempre, antes do tempo!
Lá fora as cerejeiras bravas florescem. E os tentilhões povoam os pedacinhos de terra da cidade, em busca de alguma migalha que, eventualmente, alguma menina tenha deixado cair. A Primavera chegou amor, como sempre, antes do tempo!
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
sempre do mesmo modo. E depois admiras-te. Barafustas e exclamas, como se fosse algo completamente imprevisível. Cada um colhe, as flores que semeia. Eu cuido, cuidadosamente, do meu canteiro, e entre as margaridas e os crisântemos, lá estão eles: pequeninos, os amores perfeitos. Tu não. Tens um pedaço de terra, cheio de ervas. Tens flores murchas no canto e pétalas soltas na terra. Tens folhas e ramos secos - tudo vestigios bem bonitos, para guardar numa caixinha de recordações. E ambos reflectem o que somos. Embora com bastantes falhas, eu estou cá. Estou cá para ti, como não estou para mais ninguém, e como já estive tantas vezes para tantos outros (que também deixaram o canteiro desfalecer). Há muito, muito tempo. Tu olhas para o lado, desvias-te. Expressas um sorriso de vez em quando, e eu finjo acreditar que está tudo bem. Descuras os pormenores e eu, eu começo a sentir-me cansada de colmatar as tuas, constantes, lacunas. Usa os teus pauzinhos para acender uma fogueira. Nós temos vindo a perder o calor e o conforto. E uma vez apagada, eu não tenho a certeza se conseguimos reacendê-la.
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