domingo, 30 de setembro de 2012

O outono tem chegado. Não na data definida e apontada no calendário, mas aos poucos e poucos. Os cogumelos vermelhos e castanhos dos desenhos infantis, as folhas multicoloridas em torno dos chapéus de chuva preventivos e dos troncos das árvores ainda vestidas. O céu apresenta tonalidades semelhantes às dos dias de verão (e não são estes os últimos dias da estação?), os raios de sol ainda incidem sobre nós. Porém, o aquecimento provém de outras fontes. As nuvens ameaçam chuviscos, que nós ignoramos aquando da apressada pausa de 30 minutos. A noção do suposto tem sido desmembrada entre as vozes roucas, as piadas secas ao almoço e os jogos de cartas. O vazio do tempo tem sido compensado com novas companhias. Estamos a criar uma outra dimensão, só nossa, tão nossa que quem nos rodeia a apelida de ridícula. E aí, aí surgem as trocas de olhares intuitivas que se revestem de significado. Estas são as nossas novas pessoas, os novos pedaços que nos constituem e que nós queremos desesperadamente guardar para nós. Tudo porque o contrário nos parece absurdo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a Lua a faculdade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer saudade

Coimbra do choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal
Ainda
Coimbra onde uma vez
Com lágrimas se fez
A história dessa Inês tão linda

Coimbra das canções
Tão meiga que nos pões
Os nossos corações a nu
Coimbra dos doutores
Pra nós os teus cantores
A Fonte dos Amores és tu

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a Lua a faculdade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer saudade

O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer... saudade
Crisântemos e alfazema esquecidos em bolsos de casacos de meia estação. Salpicos de água já secos, ponteados com vestígios esvoaçantes de cigarro. Gargalhadas soltas entre risos contidos e olhares direcionados para a relva. Um autêntico misto de receio e brincadeira, felicidade pura e conjugada,Partilha de fraquezas com estranhos agora familiares, que culminam numa união desmedida.A tal de que ouvíamos falar e a qual perseguíamos incessantemente sem compreender. E claro,  os inevitáveis gomos de laranjas!

sábado, 15 de setembro de 2012

As nuvens adensam-se em nosso redor. Lá em cima, impercetíveis, os cataventos parecem agoirar. Vigilantes, acautelamo-nos em tocas cuja dimensão não permite o refúgio de seres tão rudemente grandes e simbólicamente minúsculos como nós. O cheiro a terra molhada, prestes a alterar a sua característica denominação para a pejorativa lama. Estupidez e inutilidade espelhadas em termos que nós, insignificantes seres, resolvemos inventar. Olhares de desdém perante as designações quando estas são mal aplicadas. Meras tentativas em busca de um conhecimento que nos desvie a atenção das assolações restantes. Meras tentativas, tão absurdas, tão artificiais, a rogar um aprumo que seja aprazível para os outros. Distrações, ultrajes à condição dos objetos naturais envolventes. Catalogados, nomeados, agrupados. Uma atitude tão humana que reflete o nosso apego ao poder, à ansia do controlo. Somento seres como nós poderiam alguma vez lembrar-se de subjugar a natureza aos seus critérios e etiquetá-la. Apenas nós seríamos imbecis ao ponto de aplicarmos aos outros aquilo que mais detestamos: limites.