sábado, 12 de janeiro de 2013

"É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, o nó da madeira
Caingá candeia, é o Matita-Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho


É um estepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto do toco, é um pouco sozinho
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho

Link: http://www.vagalume.com.br/elis-regina/aguas-de-marco.html#ixzz2Ho015WkX
Subitamente, o meu olhar é desviado. Atento nas datas de todos os pequenos rascunhos deste blog. Remetem, os mais antigos, a 2010! Eu, que tive tanto ambição de blogs representativos de etapas, etapas que fazia questão de realçar, iniciando um novo, debruçando-me sobre um novo leque de cores, uma nova estrutura, uma linha de pensamento errantemente dispar, uma alegria contagiante por um passo à frente que, verdadeiramente, constituiam saltos indecisos entre as folhas de outono num inicio de janeiro ainda por despertar. Este é o mais longo, o menos completo, o mais subtil pedacinho de mim, que, ao invés de estar ansiosa por fechar, anseio por prolongar. É isto que o tempo nos traz.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fez tanto tempo. Ontem e o outro dia foram os nossos dias de glória. Só agora me apercebi de como o calendário se encontra preenchido por datas passadas que atormentam as presentes. Em suma, o meu pavor é tanto maior quanta a probabilidade de vir a esquecer e a de não querer lembrar.
Um novo natal avizinha-se. Supreendentemente, tem sabido a pouco e a incompleto. Onde estão as canções, as luzes cintilantes que alegram os finais de tarde, os cachecóis entre sacos de compras realizadas apressadamente sob o tictac de um compasso desregulado? As prendas a encherem a sala, entre as bolas partidas ao montar a árvore, os bichinhos do musgo do presépio, o vermelho sangue e  verde esmeralda, o dourado dos gorros, os cabelos a rebelarem-se contra os capuchos? Oh,agora temos queques e muffins, temos falta de mantas, vestidos de gala e unhas por pintar. Temos toda uma alegria pautada pelo aconchego das semelhanças.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Todas os dias são contados pela tua falta, a partir do dia em que partiste. São mais um dia depois da tua morte. Creio que nunca deixamos totalmente alguém ir embora. Contudo, a frequência pertinente com que surges repentinamente na minha mente não deixa de ser digna de atenção. Uma atenção que luto por ignorar e, simultaneamente, para reter o mais extenso tempo possível. São memórias que se vão quebrando ao serem sujeitas à força com que as tentamos prender.
Ben, the two of us need look no more
We both found what we were looking for
With a friend to call my own
I'll never be alone
And you my friend will see
You've got a friend in me
(You've got a friend in me)

Ben, you're always running here and there
(Here and there)
You feel you're not wanted anywhere
(Anywhere)
If you ever look behind
And don't like what you find
There's something you should know
You've got a place to go
(You've got a place to go)

I used to say, "I" and "me"
Now it's "us", now it's "we"

Ben, most people would turn you away
I don't listen to a word they say
They don't see you as I do
I wish they would try to
I'm sure they'd think again
If they had a friend like Ben

Tenho muito medo de que a minhadistância inadvertida te afaste. Logo a ti, que sempre me mantiveste tão perto de ti e tão protegida de tudo o que não querias que conhecesse. Tenho medo e de  tenho medo de um modo tão avassalador que o receio de to dizer se dissipou entre paragens de comboio.

terça-feira, 27 de novembro de 2012


Hoje sonhei contigo, o remetente subentendido desta carta não redigida, não enviada, impossivelmente lida. Apesar da banalidade que poderá representar para ti, que afirmas que povoo tão frequentemente as tuas noites, para mim, tão absorvida na minha incapacidade de relembrar pormenores sonhados, constitui um autêntico choque. Bem sabes que sou uma perfeita amante das meias frases, das palavras não proferidas, dos gestos não agendados. A imprevisibilidade não me é familiar e produz o habitual efeito sobre mim: a inquietação típica de uma menina que não quis crescer. Hoje sonhei contigo. Tudo isto para me lembrar do quanto tenho andado esquecida de ti. Infelizmente, agora já não posso dizer que sou demasiado nova ou inexperiente e os pedidos de desculpas sabem a orvalhada da manhã: refrescam, mas não saciam. Quanto mais tempo esperarás por mim?